sexta-feira, 8 de abril de 2016

Opinião: Imprensa em campanha eleitoral, por Gabriel Priolli


Gabriel Priolli 08/04/2016 14:15
Há uma diferença notável entre cobertura de imprensa e campanha midiática. A primeira é atividade totalmente legítima, assegurada em lei e garantia da plenitude democrática de uma sociedade. E a segunda? O que é exatamente? Com a Operação Lava Jato, temos o típico caso de uma campanha midiática. O próprio comandante da força-tarefa de policiais, promotores e juízes explicitou que, para o sucesso de seu trabalho, é necessária a mobilização da opinião pública.

Julga ele que é indispensável criar indignação profunda na sociedade, em relação aos crimes eventualmente praticados contra a Petrobras, para que o poder político e econômico não obstrua a ação saneadora dos investigadores. Daí o vazamento contínuo de informações sigilosas, que, em dois anos, transformou-se em objetiva simbiose entre o dispositivo judicial e a grande imprensa brasileira.

Vazam os integrantes da Lava Jato não para que o público acompanhe as investigações, mas para que se revolte com o apurado. Ciente disso – e com plena concordância –, a imprensa cuida de manter o assunto permanentemente nas manchetes principais. Sempre redigidas de forma a sugerir a verdade incontestável dos fatos noticiados, e reiteradas em seguida por candentes editoriais e comentários.

O resultado é infalível: uma indignação extrema. E prejulgamento. Todos são culpados nas manchetes e não há prova que convença o público do contrário. Nem mesmo uma sentença de absolvição, que sempre será tida como suspeita. A Lava Jato torna-se inquestionável e a sua força-tarefa, infalível. Vão para o buraco, com isso, diversos pilares do Estado de Direito: o equilíbrio da justiça, a presunção de inocência, o sigilo dos processos, a preservação dos acusados, etc.

Se é dever da imprensa atuar na investigação e denúncia de crimes, especialmente os que afetam o patrimônio público, pergunta-se: é também seu papel julgá-los? Se não é, por que favorece o prejulgamento? E se é seu papel ser isenta, por que criminaliza uns e poupa outros, envolvidos na mesma Lava Jato? A resposta não está no jornalismo, e sim na política.

Campanha midiática não é o cumprimento de missão informativa legítima, de interesse social universal, mas a sua deformação para o atendimento de interesses. É a exorbitância de tudo: proporção dos fatos, tom da abordagem, linguagem empregada. É a página editorial governando as manchetes e não estas alimentando os editoriais. É o enviesamento de cobertura levado às últimas consequências – com a supressão do próprio jornalismo.

O país deu um passo importante ao banir o financiamento privado de campanhas eleitorais. Não pode tolerar a sua sobrevivência na imprensa, travestido de noticiário político, tão manipulador e maligno quanto ela acusa de ser o marketing de seus adversários.

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